quinta-feira, 11 de maio de 2017

sonolências

eu conto os fios dos seus cabelos
um por um até cem
depois de novo
e de novo
um pensamento me invade: "eu
não sabia que você tinha tanto
cabelo

com ele
poderíamos reflorestar o mundo"

e adormeço
feliz do futuro


.

sim, é tarde

nas costas
carrego um adeus
tatuado em linhas
finíssimas
quase não
se vê
mas eu vo
o


.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

caca

ela enfiou o dedo no nariz e tirou
um pedacinho de si
uma bolinha caprichosa
gestada no silêncio da noite

ela
um pedacinho de si
rolando vagarosa
até alcançar a sarjeta



.

terça-feira, 2 de maio de 2017

caneta

a caneta fincada à terra
refloresta      
a cidade
e os caramujos solitários
quarto
sala cozinha
e duas pernas se esticando
elétricas
no banheiro

a caneta deixa um rastro
de tinta
no meio
da noite



.

colheita do inhame

queria escrever mais sobre
ternura
mas arranho meus poemas
e eles sangram nas pontas

terno é o nome
que se dá ao paletó e ele
esconde a corda
amarrada
ao teu pescoço
eu me penduro
como nos fios
telefônicos
d'um bungee jump
mais longo
do que a distância
entre teu corpo




e o meu

senta e sinta

senta
as minhas extremidades estão frias

teus dedos acaso congelam
se me tocam?
(e já não me tocas quando

senta na cadeira
vermelha
ao meu lado

sente
as minhas extremidades estão frias

mas minha cabeça queima
a uns 45º. graus
há um fio de lava vulcânica
e se derrama e transborda

um buquê de gordas dálias
vermelhas
forçando os vasos cerebrais

minha cabeça queima e te convido
a jogar xadrez comigo
nesse calor infernal de
45º. graus

nós dois, face-to-face
alguns cavalos, uma e outra dama
vestida de passado
o rei derrubado em sua cadeira real
e a rainha

alta e hipertensa
magnânima
alheia a tudo que não é
vida

penetra na abstração:

uma instalação de artérias
obstrução de ideias
espaços vasoaracnóideos
neurônios em cadeiras de

roda

senta

sinta

45º. graus

nós: rei e rainha
frente a frente
cercados

labaredas de fogo