sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Queen & Annie Lennox & David Bowie - Under Pressure - HD

Fernanda Montenegro recitando Simone Beauvoir - Globo News





“A impressão que eu tenho é a de não ter envelhecido embora eu esteja instalada na velhice.
O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente.
Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar.
Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele.
O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade.
Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.”
[Simone de Beauvoir]

.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

bioluminescência

enquanto não posso m'abraçar no teu corpo
afundo delicadamente as mãos
em tua sombra

e gozo no escuro


.

peixes sedentos

o rio afoga tudo que ama
é preciso ser forte
ou peixe


.

vó rosalina

as folhas branquinhas da cabeça dela
viviam carregadas
de passarinhos
maduros
lá do chão eu esticava uns olhos
lombrigosos e ela ria
gordo
"vem cá fia
toma aqui seu bocadim de asa"
eu enchia a boca
e saía voando
.

paraiso

não dá pra escrever um poema
e permanecer
casto

todo poema instaura um pecado
original


.

diálogos

à beira do rio de mim
brotam pássaros
pedras
sombras e flores
selvagens

à beira do rio de mim
em amarelos solares
as trompetes de anjo
cantam em coro com
o vento:

vem sentar-te comigo
lídia
à beira do rio
de mim

enlaça as mãos
e espera: todo o rio
corre
para o mar


.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

aquário

não sei como esses peixes me brotaram dentro
mas fato é que tubarões filhotes comem uns aos outros antes mesmo
de nascer
por isso meu útero assim
retalhado

algumas vezes coloco o escafandro e desço
mil pés
abaixo do nível do mar
e fico lá flutuando entre as ruínas do ventre

algumas vezes não volto nunca mais

rasgo
o uniforme da Cia de Perfuração Maríntima
e me encolho, nua, entre uma âncora
enferrujada e o leme vestido de coral

e permaneço ali
assim: molusco enquistado

me gestando
               pra sempre



.


1.

PRIMEIRA LIÇÃO DO MENINO ADÃO
não
se aproxime

aquelas frutas te comem

avesso

o lado de lá das minhas águas
é fogo

hemograma

ele escolheu a melhor veia 
e tirou dali duas seringas de violeta
de metila
pra avaliar a quantidade e a forma
dos meus azuis


eu estou bem, obrigada
já seus dentes
nunca mais serão os mesmos

casimirianas

enquanto nada acontece
escrevo poesia do passado
quando acontecer
não escrevo mais


.

destino

o destino de toda certeza é virar uma dúvida
o destino de toda certeza é virar uma dúvida?

1895-1908 Loie Fuller's Serpentine Dance (highlights from the greatest m...

regras marítimas

ainda criança me ensinaram a deixar
o navio
e vir para perto das águas

em adulta
a lição do abandono não
me esqueceu

já os homens
todos afundaram tentando
ficar no alto


.

promessa

eu disse te amo
respondeu:  
       promete que vai ser feliz?

e eu fui muito triste
tentando cumprir a promessa
       alheia


.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

incêndio

por muito tempo tive um amante -  e acho inclusive que nos amamos
ele era bombeiro
não sei bem o que nos aproximou mas a gente se dava bem

ele era argentino
forte e grande e feliz como devem ser todos os bombeiros
argentinos
e os heróis
de histórias em quadrinhos
mas são dos seus olhos
profundamente azuis
oceânicos
a minha lembrança mais terna
sentia-me tragada por aquela constante ressaca
marítima
eu o amava por isso
talvez

me amava porque eu o fazia se lembrar do maior incêndio de sua vida, dizia
a fábrica de fogos de artifícios cuspindo labaredas a noite inteira
três pessoas morreram
mas, segredava, havia sido um senhor incêndio
lindo

depois fazíamos amor
ele ficava de pau duro quando repetia a história
o incêndio de 1999, pra ele
tinha o meu nome

os olhos vermelhos escalando meu corpo
me tomando como se fosse a última vez
todas as vezes

o que é que você tem?
febre, ele dizia
e eu queimava

mas aí um dia alguma coisa aconteceu e ele se foi
também
confesso uma ponta de inveja da mulher que dorme nas águas empoçadas do seu olhar
mas só uma ponta
desse iceberg que me frequenta por dentro

não consegui mais me desvencilhar daquele nome com o qual me batizou
sua língua
labareda de fogo
artifícios
a minha

aquele incêndio tinha o meu nome
e o meu nome era
incen
diosa

mas não sobrou muita coisa perto de mim
nem móveis
nem gentes
nem papéis
nem o canavial que me brotava nas costas
só nadas azuis
e algum vento
que sigo
queimando


.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

rosário de dentes



.

rosário de dentes

trouxe de outro mundo a cara devorada
por um dragão
e um incêndio
subindo pelas ruas ruidosas da avenida que corta
aquele de-dentro da garganta
onde gritos
colidem no interior
d'um grito
mudo

era com ele que me encontrava quando cerrava os olhos
os sapatos amontoados do lado de fora e os dedos
deslizando sobre o rosário
de dentes

eu rezava a letra de uma canção do ramones
entre um trago e outro de uisque
barato
porque tava caro demais bancar
meu desejo

e caralho meu desejo é explodir
explodir essa porra desse poema meu desejo é
parar no me
io d'um verso idiota
meu desejo é dar na tua cara estraçalhada de dragão
enfiar uma bomba nesse buraco de escuro e vísceras
mijar em cima desse incêndio de merda
que você meteu
nas minhas gavetas
de calcinhas
nas minhas gavetas de camisas e calças vincadas dos meus sapatos de salto das minhas agulhas da minha erva
nas gavetas onde guardo as chaves da casa
que não tenho mais
da paz que eu não tenho mais
da vida
que você fodeu

eu quero é que se dane esse teu grito em que voa longe os meus papéis o meu dinheiro as contas de telefone e gás
que porra é essa que você pensa que tá fazendo com a minha vida?
mesmo agora quando já não faz mais
na-da
essas duas mãos nojentas trançadas
me esperando

eu quero é decepar os teus dedos enroscados pra sempre nos meus cabelos

eu quero é que o inferno te queime e todos os diabos te comam ao som estridente de uma guitarra eletrizada

que merda passou pela tua cabeça de me deixar aquele bilhete?
aquela porra daquele testamento de amor eterno?
aquela adaga sem corte
e sem adaga

vá a merda com teu amor de merda
com teu sangue aguado de merda
com teu caralho murcho de merda
com tua letra tremida de azul no papel

com teu nome escaravelho me comendo por dentro

sacana filho da puta

eu sei que você tá morto

mas eu quero que você morra mil vezes mais

uma


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

bom dia

como posso escrever um poema
sobre o presente
se a manhã ainda está
sendo escrita
por meus olhos nublados
de tinta
amar
ela?


.

domingo, 7 de dezembro de 2014

estrangeirismo

ela me manda calar
e cola
a concha ao ouvido
o que sabem as conchas que eu ainda não sei?



.

pedra

foram as tuas serpentes
que fizeram pedra dos meus braços

e dos meus abraços
jazigo de mármore
pra tua morada


.

naturalidade

eu tenho um amigo que nasceu em Maravilha
ele é maravilhoso
mas todo mundo quer que seja maravilhense

isso é uma pena

porque eu nasci em Laranjal
e sou
doce


.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Justo

deixa esses sapatos que já não te servem mais
e calça teus pés nos meus
que são tamanho
G


.

tatuagem

eu tenho uma geruza tatuada nas costas
em traços realistas

que te encara
face-to-face
olho-no-olho

quando você vem
por detrás
pra me transpassar
com sua faca
                 afiada

eu tenho uma geruza tatuada nas costas
ela tá sempre alerta

maçã aberta

tudo o mais
é engodo
distração
desvio e
camuflagem


.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

as três delícias

tenho uma pequenina loucura morando 
atrás do meu ouvido
vive sola 
la locurita
batendo panelas 
cantando gardel
e suge
rindo coisas ab
surdas

mapa astral

sentindo-se parcialmente deslocada na casa VIII 
geminiana com sol na paulista
ascendente em capão redondo
e lua na vila
mariana
precisa mudar seu nodo norte
e se encontrar

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

devagar como a matemática

gosto de sentar num banquinho e ver a vida passar
lenta
gosto de sorrir pras pessoas que sorriem pra mim sorrindo pra elas quando sorrindo passam assim
lenta
gosto de ouvir a playlist que toca no jardim ao lado suspenso de cinzas e flores envioletadas
lenta
gosto de observar o escavador abrindo túneis escuros em toda extensão do pensamento
lenta
é a ideia que gosto de sentir
no seu abrir de pétalas
lenta

sentada no banquinho, balanço
lenta
pernas queimadas
pela xícara de chá
que já esfriou nos trilhos do tempo mas ainda
tem gosto de água
e hortelã

as folhas que me sobem pelas canelas
têm a textura estriada dos sonhos que sonhei pra viver
lenta
contigo
lenta
a tarde que se elabora vítrea em favos de mel
lenta
a tarde que se elabora
há tanto tempo
para ser
presente
de um futuro
em dois
dividido
lenta
ment
a


.

menina

não era penélope, mas teceu um longo tapete
mágico
com os finos fios de seu cabelo
marrom
ponto a 
ponto cruzado no trançado geométrico
lindo desenho 
d'um labirinto místico
sobre folhas justas
de juta

presa as pontas com tictac
suas franjas aladas balançando com o vento
na companhia de pequenos 
pássaros sem 
asas
ainda

a menina do tapete 
voadora
abandona os sapatos gastos
repisa grossa trança de romeus enrolada às canelas
e senta pra pensar
em nada
a não ser nos pequenos pássaros
ainda
sem asas

pernas cruzadas frente ao tear inventado
laçando nuvens
ela fia fiandeira
de destinos
fio por fio os seus cabelos
agora
d'eles
os pássaros
com asas 
marrom
adornando a imaginação

e a menina sem tapete
só asas
sorria muito enquanto caminhava
descalça


.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

hárvore

pássaros azuis
pousavam
nos seus dedos

por isso tão livres e
leves
sobre meu corpo
                       céu

porque os pássaros
[quando são azuis]
o céu e os
dedos
gostam da liber
                    dade



.

José Gonzalez + Mia Doi Todd - Um Girassol da Cor do Seu Cabelo [Live 6-...

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

do amor

contei 
sete sementes de pedra do sol
mergulhadas entre os meus lençóis listrados 
de algodão
e sete mudas de sálvia cuidadosamente depositadas sobre 
as fronhas finas do meu travesseiro

espero
pra ver o que vinga


.

 

muda

cuspi saliva
         salina 
         néctar sagrado 
na cova terrosa 
das tuas mãos 

           revolvi 
com o arado 
           de dedos 
           e unhas
molhada
           em azul

três dias de lua 
e três luas 
de sol

plantei ali entre raias 
estriadas 
de destino
               uma muda 
de amanhã
enxertada de ontem:

terceiro olho
nublado de chuvas


.

invasão (som)





quinta-feira, 27 de novembro de 2014

café da manhã

no café da manhã
pão
francês
e margarina brasileña

migalhas de uma fome que me mordeu a noite toda


.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

invasão

é claro que podia 
é claro que podia ter me poupado de tudo 

mas não
              invadiu as minhas letras amarelas
              meu pão com mateiga
              minha roupa amarrotada no corpo
              meu corpo ah
              invadiu meu copo
                                   de aguardente
              invadiu meus dentes
              as nuvens que guardo no travesseiro
              meu cheiro
              as ervas do meu jardim 
                                 suspenso 
                                 por pernas
              invadiu minhas penas
                           a palha do meu cigarro
                                            a fumaça
              o debaixo das minhas unhas
              a gruta onde me escondo
                                   quando chove
              a casa que carrego nas costas
              me invadiu pelas costas
                                 pelas grades
                                 dessa gaiola
                                 de dedos
              me invadiram todos dedos                              
              invadiu meu peito
                           e nele 
                           o coração
              invadiu a minha garganta
                           e todos os gritos
                           em cada suspiro
                           o teu sorriso
              invadiu
              a minha vida         

podia 
ter poupado os meus sonhos
mas o som não
                respeita 
                o silêncio



.

Violeta Parra - Run Run se fue pa'l Norte

azul

azul

é esse pássaro que morde os meus ouvidos
                        que bate as asas
                                         nos meus sonhos
                        que fuma o ruído selvagem
                                          da rua
                        que engole a gula do meu
                                                      sorriso
                        e
                        que não tem nenhuma
                                     pena

de mim


.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

pensamento

um
fantasma melancólico
espreita
meus pensamentos
por detrás
do espelho

desmesurada atenção
fazer poesia
pra um simples fantasma
ainda que melancólico


.

breve

digo
uma palavra
solta
a imaginação
prende

           você


.

roçado branco

leva meus olhos pra passear pelos teus
verdes
                              campos de milho
pra tomar chá no inverno de tua barba
dourada

lava minha boca com a sagrada cerveja
da tua

e roça minha pele pra receber os grãos
com teu arado
de unhas
roídas

toma-me, cigarro de palha, entre dedos
e tenta
                         em vão                                    
                                             conter-
me
mingau
queimada

Lila Downs - Palomo Del Comalito

imaginaçõa

vertical é a flecha
que cai sobre
minha cabeça

grafite de lapiseira
ponta
firme

sento-me
e acomodo-me
sobre ela
flecha em riste
a quase exatos noventa graus
queimando

bloco
alvo de papel
dessa minha louca
invaginação


.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

do alto

vira e 
mexe
a vida cai toda inteira em cima da cabeça
                                                    da gente


.

elegia à cinderela

o nome dele era 
[o nome dele não importa]

ele botou uma perna dela pra lá
e outra pra cá
aí meteu um poema bem dentro da vagina dela

o nome dela é
[o nome dela não importa]

uma perna dela foi jogada pra cá
e a outra pra lá
e o poema foi metido com força vagina adentro

era de noite e ela 
só 
soube de manhã
o corpo de lírio
delito

fios de versos 
escorrendo pelas pernas rasuradas

antimusa enrolada nos trapos de um conto
popular

fada rasgada
amputada de bolsa ou brinco
descalça 
também
na escadaria de lugar nenhum

colar de ametista dando volta no pescoço

o taxista sugeriu um ponto final
o policial questionou uso abusivo de anáforas
o médico constatou pouco espaço em branco
o porteiro lançou considerações semiológicas
o vizinho censurou o estilo hiperbólico
o marido deu-lhe uma chave de ouro na cara
o advogado pediu sete rimas ricas à vista
o pai mencionou as estrofes curtas 
o chefe apontou inverossimilhança
o pastor aconselhou duas odes e três epopeias
o poeta ensaiou uma licença poética 
            pro verso
            decassílabo 
            toda mulher gosta de poema

[não se deu ao trabalho de escrever que poemas que começam com toda-mulher-gosta-de-poema desgraçam a sintaxe desgramat
icalizada e insubordi
nada
da gente]

e porque não era taxista, policial, médico, porteiro, vizinho, marido, advogado, pai, chefe, pastor,
muito menos poeta

ela 
que é mulher
          gênero impuro
          silenciou




.
[para X,
desde dentro do meu choque e em nome do meu amor]

romance

eu queria escrever
um romance
mas eu me sinto um pouco cansada pra romances

porque os romances
tiram sono da gente
não importa se curto frag-men-ta-do líquido horizontal pós ou ultra-contemporâneo

o romance sempre é refém de mimimi e de escrevências
d'um conflito imprevisível
previsto pra abalar a estru
tura

chamadas a cobrar:
amor
atenção
e versos bordados

macumbarias e feitiços
chantagens na carteira

romances dão dor
de cabeça e lesão
por esforços repetitivos

volúpia lágrimas delírios um beijo grande e dois ou três
pequenos

suspiros

convenhamos: o processo
é cansativo

mas nada que pó de guaraná e um eu-te-amo a caneta
ao pé de página
borrada de azul
não me botem
bem
acor
dada


.

coincidência

cerca de arame farpado
que divide em dois
a minha consciência


.

consciência

cerca de arame farpado
que divide em dois
a minha coincidência


.


ato

nesta peça
eu sou aquela que vai chorar
depois
não
importa


.

Fugees & Roberta Flack - Killing Me Softly

mas

a palavra nuvem não é
nuvem
nuvem é a palavra
                           'mas'

eu te amo
mas

eu sou feliz
mas

eu amanheço
mas

eu vou
mas

eu espero
mais

e tudo que não era céu
e sol
dissipou


.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

pingentes

é imprescindível
algumas nuvens

tule tecido em algodão
pra se olhar
diretamente nos olhos

do sol

frente
a
fronte

          a nudez

cega
          do sol
cego


.



Neil Young - Heart Of Gold







[com Nicholas]

buquê de flores frescas

colhi
uma a uma as flores do meu delicado jardim
corpo estendido de terra
          macia
a colheita
orvalhada
gozosa do plantio
demoroso
e dentado
do ciscador revol-
vendo a... água
gozosa da semen-
te: forcado fabrincando duro a nova estação
de flores fincadas:
violetas
roxas
lilases
alguns azuis: canteiro protegido na tessitura
de estufa: pétalas nascidas na primavera ou
sada dos meus ais
invisíveis a olhos
nuas
as manhãs em que colhi uma a uma as flores
frescas do meu jardim
embaladas
doce
buquê de exóticas cores que eu preparei pra
você
em homenagem
a sua ausência



.

De Janeiro a Janeiro

terça-feira, 18 de novembro de 2014

fuzil

ao lado do fuzil
a morte
espera


.

amor

o meu amor tem portas
abertas
e joelhos destrancados

o meu amor
                     [é mudo]


.

turbinas

mimimi
mimimi

um avião voa pra lá

mimimi
mimimi

um avião voa pra cá

mimimi
mimimi

aninhados nas turbinas do tempo
passarinhos mimados continuam
miando
miando
miando

atenção!


.


noite

obsceno pássaro
negro
       dorme
aninhado em minhas mãos


.

violeta

qual a cor das grandes paixões
senão o violeta?

primavera tímida
florindo às bordas dos tecidos


.

aerosol

nas paredes do céu

versos
pixados
na língua de deus


.


painel

pendurado no canto
das asas
      do olho
um céu
      grafitado 
      de 
      branco


.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

cientista

se eu fosse cientista eu inventaria um simulador de céu com essas nuvens fofinhas no horizonte que a gente vê quando está voando acima delas. colocaria também um pouco de infinito. de diferente: as nuvens seriam densas para se pular sobre elas, cair deitado, rolar e rir. penso na possibilidade de serem comestíveis, mas ainda não me decidi. eu seria a primeira a testar o simulador de nuvens portátil e convidaria você para estar lá comigo. seria a primeira vez que nos encontraríamos, a sós, no infinito... no infinito fofo de nuvens... seríamos somente eu, você e o controlador por detrás das paredes camufladas de azul. (é... porque sempre tem um controlador, disfarçado de natureza, controlando nossas tempestades)


.

doce de nuvens

a pior coisa que pode acontecer com uma pessoa
pequena ou grande
é ficar com vontade de comer
nuvem

ela pode até comer chantilly
marshmallow
miolo de pão

mas nunca a vontade de comer nuvem
vai passar
vai passar
a vida toda lombrigosa

porque nuvem não se come
é só pra enfeite

issoé muito triste
eu sei

          já aconteceu comigo.


.

em cima

é tão engraçado
aqui
acima das nuvens

me interessa
quem está
em

baixo


.

genealogia

        do meu tio restou-me
uma coceira nas penas
        de baixo

e certa familiaridade
com a sujeira


.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

o homem do saco

o nome dele era val, val
de mar
porque tinha os pés incrustados em conchas
e usava um paletó de líquens
por cima do casaco de pelos
e tinha pelos na cara mas eu não tinha medo
dele

ele era o homem do saco e o homem do saco
era o meu tio

ele era perigoso
de facão e tudo
mas não tinha dente e eu ria de engraçado
a gengiva que nem minhoca
amassando pão

tinha o cheiro podre das gentes que não sabem
se gente
dos que se acham só mundo
tronco
cogumelo
abelha
ferro formiga e carniça

depois ouvi que era pedófilo e estruprador
achei bonito
não conhecia as palavras praquilo que era
a vida
que tinha matado um homem ou cinco
e que vivia fugindo dos próprios
pés

eu achava que ele guardava a cabeça
do morto
dentro do saco
um olho furado de facão e outro aberto
enrolado na roupa suja
mas nunca tive coragem pra espiar lá
dentro

quando ele aparecia em casa
com bichos invisíveis que coçavam a gente
minha mãe trancava a porta do banheiro
com duas voltas na chave

ele era andarilho
e do portão pra dentro
me botava sentada: as perninhas abertas
em cima
do pescoço dele
e trotava
pra lá e pra cá

segurando as pontas dos meus dedos
eu toda braços apertos
avezinha
de rapina
passarinha rosa roçando os piolhos
dele

não sei o que sinto quando falo isso
sensações de semente continuam analfabéticas
mesmo quando
árvores

meu tio chamava val, val
de mau

mas eu não tinha medo
e não me importava com o nome dele


.

O andarilho - Manoel de Barros

Eu já disse quem sou ele.
Meu desnome é Andaleço.
Andando devagar eu atraso o final do dia.
Caminho por beiras de rios conchosos.
Para as crianças da estrada eu sou o Homem do Saco.
Carrego latas furadas, pregos, papéis usados.
(Ouço harpejos de mim nas latas tortas.)
Não tenho pretensões de conquistar a inglória perfeita.
Os loucos me interpretam.
A minha direção é a pessoa do vento.
Meus rumos não têm termômetro.
De tarde arborizo pássaros.
De noite os sapos me pulam.
Não tenho carne de água.
Eu pertenço de andar atoamente.
Não tive estudamento de tomos.
Só conheço as ciências que analfabetam.
Todas as coisas têm ser?*
Sou um sujeito remoto.
Aromas de jacintos me infinitam.
E estes ermos me somam.

(In: Livro sobre nada)


* Penso que devemos conhecer algumas poucas cousas sobre a fisiologia dos andarilhos. Avaliar até 
onde o isolamento tem o poder de influir sobre os seus gestos, sobre a abertura de sua voz, etc. Estudar talvez a relação desse homem com as suas árvores, com as suas chuvas, com as suas pedras. Saber mais ou menos quanto tempo o andarilho pode permanecer em suas condições humanas, antes de se adquirir do chão a modo de um sapo. Antes de se unir às vergônteas como as parasitas. Antes de revestir uma pedra à maneira do limo. Antes mesmo de ser apropriado por relentos como os lagartos. Saber com exatidão quando que um modelo de pássaro se ajustará à sua voz. Saber o momento em que esse homem poderá sofrer de prenúncios. Saber enfim qual o momento em que esse homem começa a adivinhar. (BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010, p.353)


.

estalagmite

tendão
tensão
t  esão

ninguém sabe muito bem o que se passa no escuro das cavernas da escrita
onde a água
pinga
con
ti
nua
mente


.


nexo

palpita o teu
nexo
espremido na ponta dos dedos

claustro de paredes escorrega
dias
de saliva

abro a boca e teu nexo treme
escorrega
novamen
te

palpito sobre o teu (nexo) tro
castes
castos
pés pelas mãos

palpite:
respira

relâmpagos


teu astro transborda o pluri
verso
de anéis e digitais siderais


.



androgenia

eu me escondo na parte fêmea do poema
andrógino

dura

tomada de precaução

fio terra
boiando na água licorosa da parte mar chão
delicado 
tudo que é macho 
é melagridoce e es
corre nos desvãos rochosos do que em mim
gruta
grita
mais

eu me escondo e não quero fazer chamadas 
ilimitadas
pra qualquer canto
do brasil 
pagando
pouco

eu detesto receber chamadas 
a cobrar 
poesia
ou mensagens d'operadoras
no meio do poema 
claro

eu quero que a outra parte se ligue e toque
marcha ilimitada
                    [just like honey]
a fina película que encobre o que em mim
é cheiro


.

The Jesus and Mary Chain - Just Like Honey

mãos

ele colocou a cabeça entre as mãos
e os cabelos deram voltas
nos dedos

ele apertou a cabeça entre as mãos
e as unhas cravaram
nos medos

o homem com cabeça
entremente
espremeu os pensamentos
abortou as imagens fetais
amputou os mais sagrados
ideais

um homem
embrulhou a cabeça entre as mãos
e ofertou-a
                               
                                     poesia


.



a densidade do ar

havia um lugar sem
nome e sem tempo

nossos encontros aconteciam lá


.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

viçoso

quero aproveitar minhas chuvas
pra plantar essas sementes
de peixe-dourado
e esperar
geruminar
até

a próxima estação:

e vai descer na luz
com a alma na mão a saudade na mala o coração
no desejo:

corpo florido de escamas
em primavera
de água doce

plantado

na minha cama


.

cigarra

uma cigarra
canta louca
no meu peito

toda cigarra
é bomba armada pra ex-
plodir

.

chuvoso

o sumo do céu
desaguou
nos cantos
da boca
          da noite

e o meu corpo de terra
barranco
charcoso
t'aguarda

e palavra
voz rouca de sementes

santo
é o verde
que te fez assim
tão azul

meu copo agora é só
alegria


.




terça-feira, 4 de novembro de 2014

tapeçaria

pode apagar então
aqueles riscados fundos que traçou nas minhas costas
dizeres de amor
palavras loucas
desvirgulada somatória de futuros todos com destino
no fim do mapa
desenhado com rios de bic azul na sola dos meus pés

apaga tudo
não deixa nada que lembre
plano
piano
rastro
e rota
deixa lisa
deixa branca
deixa livre a parede da memória
deixa só com aplicação de papel
de pele
de pó
de arroz

rica tapeçaria pastrana
arraiolos enrolados pelo tempo
pelo teu tem


que me atravessa como sopro
que perde o fôlego
[que perde]
a cabeça
[que pede]
o juízo
[que perde]
a letra
[que pede]
a última
[que perde]
palavra


.


pajarito

dá-me um carinho passarinho
dá-me um beijo
beija-flor

nessa noite eu estou sozinho
cantando triste
sem amor


.

o milagre

tocou
com os dedos leprosos os meus poemas
e pouco
a pouco
e um
a um
eles foram se levantando


.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Carla Morrison - Dejenme Llorar





<3



.

fim

cozinhei por muito tempo
aquela palavra
fim
no poço d'um último sol
uço amarelo-
fôlego arran-
cado à unha

cozinhei em saliva'marga
até que macia a palavra
rasgou
delicada a língua bífida

e um vergão vermelho
foi tudo o que sobrou
no


.


palavra

eu te disse "amor"
você disse "legal"

então pegou amor
dichavou e fumou

só sobrou fumaça


.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Legiao Urbana-Andrea Doria ao vivo

bota vermelha de cano longo

eu ando com saudades
longas
apertando os meus pés


.

banho

amarrei os sete ramos
das minhas ervas de poder

preparei o banho de acento
com um punhado
de sálvia
              e sílaba
tônica

botei o poema de cócoras
intimidade exposta
medicina ancestral
curadoria de chá


ele ficou ali sentado
períneo mergulhado
na mornura

preguiçoso

agora diz que tá gestando
uma flor

orquídea anã
piquininha
quase nem se vê

mas tá lá
mergulhada na fumaça

do cachimbo dele


.

L'odiosomatto

desmontei o despertador
mas não encontrei
o tempo
perdido

tic-tac
tic-tac
tic-tac

marcapasso
sintonizado
no rodapé
do seu tango de pulso

desponteiro frenético

giros do agora

só essa noite

me pega pra dançar?


.

de todos os azuis

milou maass


de todos os azuis
só o seu
me é mais verde


.

ciosa

como

a loba

lambo a culpa

molhada

no vão

das pernas


.

chorosa

é sempre tuas costas 
que eu amo primeiro

depois ombros e nuca
cabelos

as pegadas invisíveis
do teu cheiro

no contato

é o teu corpo de cacto
que desamo primeiro

depois dedos e agulhas
língua

as letras invisíveis
no poema
alheio



.




a confissão

você lembra aquela noite?

eu cheguei cedo
eu não jantei
eu tive febre
eu chorei de medo
eu disse eu-te-amo
eu beijei tua boca
eu disse pra-sempre
eu apaguei a luz
eu dormi no teu abraço

eu lembro aquela noite

você chegou cedo
você não jantou
você teve febre
você chorou de medo
você disse eu-te-amo
você beijou minha boca
você disse pra-sempre
você apagou
você dormiu

naquela noite
eu trepei com o meu melhor amigo


.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

quando agora me começou

quando o sol bater na janela
do meu quarto

                    agora mesmo
o mundo re-
começou


.

Legião Urbana - Quando O Sol Bater na Janela do Seu Quarto (Ao vivo.metr...

poema

é preciso escrever muita, mas muita porcaria mesmo
pra, por pura obra do acaso, 
encontrar alguma coisinha 
que valha 
uma pena

poema é que nem gente.


.

tempo

meus cabelos amanheceram tingidos de neve
e os meus seios
mais tristes
do que ontem

meus dedos amanheceram tingidos de nome
e a minha língua
triste
de silêncio


.


pescaria

chegou e 
me trouxe de volta 
pra casa

e então sentados lado 
a lado só
o verde sem tamanho
do interior

arremesso o molinete
dou linha pros olhos
tentando pescar o teu

horizonte

pacienciosa espera

d'antigos pescadores
da pele
do lago
arrepiado pelo vento

na geografia rochosa 
do abraço

a delicada pescaria
que dispensa anzóis


.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

livro

eu sei o teu nome

eu sei o teu número
eu sei todos os teus números

eu sei os teus poemas
eu sei todos os teus poemas

eu sei teu rodapé
eu sei a tua boca

eu sei o teu desejo
eu só sei um
aquele que importa


.

liberdade

a minha liberdade
para quando?


.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

nome

me diz então o nome dessa história
porque um pouco
de pântano
invadiu minha memória:

uns ciprestes altos e vigilantes
sérios senhores fardados
de escuros

depois uns muitos olhos
vermelhos
crocodilos à espreita de pernas

de fadas fodidas
abandonadas à lama

no meio disso tudo tua mão
assim só ela
empunhando os cinco dedos
unhas roídas
e uma estrela de davi
fincada na palma

me dá um sol
e guarda o segredo do nome
que eu não preciso mais
                                 dele


.

idílio

ele amanheceu
com um pequeno cadáver
entre os dentes


.

Ponto Saudação à Iansã Umbanda (com letra)

sábado, 18 de outubro de 2014

patoá

talvez seja isso mesmo que a palavra, assim quando escrita, tá sempre a dois ou três passos da gente, mantendo distância segura e só aguardando, meio que de longe, a nossa vinda, palavra-templo de portas entreabertas, exigindo apenas a força dum empurrão e, depois, depois só aquilo que a gente tá a fim de dar... já a música ah ahmúsicah ela é assim toda ousada, intrusa, caradepau, a música não espera: ela se lança sobre a gente sem pedir licença, sem diplomacia nenhuma, sem perguntar se estamos prontos ou não... 

aqui do lado de casa tem uma loja de cd - é incrível que isso ainda exista e eu acho até que alguém paga pra manter esse negócio de tocar gente aberto - todo dia trago de lá uma música de presente colada na língua que nem bala toffe de paçoca... mas bala que já veio nua sem que se ouvisse o som do papel anunciando chegada: só o susto dum grude doce enroscado nos caninos e, depois, a língua profanada, toda melada de som

hoje passei lá, cheia de sacolas vazias, e ela, ah ela pulou sobre mim num assalto inesperado... tentei me desvencilhar mas ela, ah sedutora, uma prostituta pendurada no meu pescoço... não se me largou, enlaçou os dois braços na garganta e arranhou o invólucro da ideia, lambendo lentamente a pele porosa do meu olvido... filha de ninguém! ratazana sorrateira! uma sacana esmolenta a quem eu disse primeira vez não! depois, segunda, um fechar de olhos pra observar seu giro larapioso abrindo sem força meu porta-moedas do peito... arrancando de mim o que já nem tenho: meia dúzia de prata líquida, sem valor pra você, mas que eu ainda guardava como um precioso patoá, plantado no céu da boca.

https://www.youtube.com/watch?v=kjRo_CHSdt0


.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

capíltulo 139

'oliver me promete uma coisa'

'o que benzinho?'

'promete que não vai morrer
nunca'

'eu não vou morrer benzinho'

'por quê?'

'porque eu sou uma ficção'


.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

indomável

[denis dubois]

pedras

não suporto o grito das pedras
sob meus pés

elas sangram aos meus passos
algumas morrem
outras ficam em estado crítico

nada posso fazer agora que dispensei as asas
crueldade alada açoitando as nuvens e azuis
celestiais

não me movo: só em mim mesmo
me movimento
meu corpo foi feito pra machucar


.

anzóis

então me empresta teus anzóis de pescar companhia
não me deixe sozinha atrás do armário
enquanto a noite se alonga até quase tocar um raio
de sol é claro
que eu pego e pago o favor em dobro dobrada sobre
a cama
enrolada nos lençóis e nas rendas e na rede de arame
armada pra confundir tubarão espada na mão ao alto
me empresta os teus anzóis
pesca tu mesmo meus poros
me arranca uma a uma as es
camas me bota pra dormir no teu peito e canta canção
de mar daquelas de ondas que levam e nunca é demais
trazer de volta pra casa um peixe dourado sereia loura
alguma coisa que lembre
poesia no fim de um dia
vinho, chocolate, solidão
pensamentos exaltados de uma mulher em abstinência
lisérgica
hormonal


.

Audioslave - Like a Stone

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

capitulo 77

foi aí que comecei a lidar com artesanato
fiz um verso longo de arame farpado e dei três voltas no pescoço

ficou lindo!


.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

capitulo 67

é claro que deu merda

deu merda pra todo mundo e talvez tenha sido mesmo eu
a única culpada

acontece que tava bom pra nós
pelo menos eu achava que tava

pra mim parecia que nós três estávamos respirando melhor
depois que ele chegou
e passou a frequentar
meus mares de dentro

nunca me faltava oxigênio
mesmo quando fazíamos aquelas peripécias todas na jaula
do globo
da morte
vivíamos
mais
felizes

sempre uma brisa fresca
um sorriso alegre
depositado na conta do travesseiro

ele me fazia bem
com seus pés alados

mas aí ele resolveu
que nós dois éramos nós
sem ele
sem ela

e minhas asas murcharam


.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

capítulo 16

adivinhosa

ela tinha cheiro de baunilha e chupava sorvete com os dedos

mas era inverno e sorvete, frio demais pra aquecer a língua
enrigecida e acorrentada
no silêncio

eu tava numas de academia: ler na esteira me deixa com tesão
de escrever

meus dedos tamborilam no controle
remoto

os dela, entretidos com outra coisa

'preparo um chá de sálvia e vemos um pouco de tv'
'prefiro coca... gelada'

ríamos das minhas meias: duas aspirantes à alegria

duas carreiras de fogo branco esticadas sobre a mesa

sinos tocam no meu peito

'perto de você eu queimo'


.

domingo, 14 de setembro de 2014

capítulo 13

que porra é essa que ele tá fazendo?

por que destrança meus cílios quando eu mesma levei milhares de frações de segundos para atá-los uns nos outros em delicados nós de penélope, a feia

minhas moiras incansáveis na arte da costura e de repente o laço de cílios se desfazendo de repente as linhas das digitais de repente o fino fio de algodão e a agulha de repente e o rastro e o corte e o pente cravando os dentes

passei as mãos no cabelo

as mulheres passam as mãos no cabelo quando não sabem muito bem o que fazer
ou quando sabem muito bem
o que fazer

?


.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

capítulo 12

exórdio
é a citação que precede o corpo
do texto
pro derrida o exórdio guarda um excedente de sentido que dá o comando do que vai ser lido

eu tenho uma tatuagem inscrita no corpo
ela está situada antes e depois da pele e tem cor de sangue
azul

piquei quando tava na prisão
é a marca de um condenado e todo mundo sabe que o condenado não tem tempo:
tá suspenso no entre-lugar da pele

tatuagem é bom que faz lembrar de não esquecer de procurar a memória que ainda
falta

mentira: não é uma tatuagem

é uma circuncisão: tradição dos malditos cicatrizada em torno do meu pescoço
porque é ele que encabeça meus textos


'mas fica tranquilo benzinho pode continuar metendo
isso não quer dizer nada não só solidão

pertença'



.

capítulo 10

eu tinha dentes grandes quando era criança
como nunca deixei de ser, tenho-os até hoje

mas nunca mordi ninguém
sempre soletrei sílaba por sílaba cada um dos meus im-
pulsos

por que então o desejo agora
de morder o pescoço do tatuador e cravar os dentes ali na garganta dele pra vampirizar a fonte
das trovoadas, dos relâmpagos e desses sismos todos que ele picou nos meus olhos
ainda fechados?

e-u-n-ã-o-s-e-i


.

ninguém

ninguém conhece
o carteiro

ninguém


.

capítulo 9

tudo o que ela dizia era silêncio e então era
como estar em casa

em casa grande e vazia de quinquilharia, as palavras ecoam e dançam

dançamos

não podia mover-se
mas veio com fome e unhas longas

mas unhas não resistem
a dentes


.

capítulo 8

aí ficamos as duas separadas por uma fina linha de algodão
invisível

'você está mais pra lá ou pra cá?'

ouvi 'lá'
depois me pediu pra puxá-la de volta
tentei

mas seus dedos só tinham as pontas
tudo o mais era abismo impalpável
de escuros

lisos os meus dedos
e molhados demais
                                     pra segurar


.




capítulo 5

'o que você tem escrito aí?'

os caras perguntam

as mulheres também, mas elas leem em silêncio e silenciam
invariavelmente a mulher encara o amor mais de frente

já os homens curtem te deixar de quatro
por eles

então perguntam duas vezes: 'o que você tem escrito aí?'
e  'o que quer dizer isso?'

sim: todos - intelectuais ou fortes - querem saber o significado por detrás das coisas
o que se esconde sob a pele das palavras

nessas horas nunca fingem que compreendem
a nudez estimula
a nudez

ou o pavor de ser encarado por ideogramas desconhecidos embrenhados nas sombras
dessa selva urbana de peles e pelos:
corpus

'ah entendi: tu não te moves de ti... hmmm
então agora vem vem dar pra mim gostosa'

e avançam


eu não me movo



.

capítulo 6

tatuagem pra mim é que nem casamento:
pra vida toda

claro que não pensei nada disso antes de picar a tatoo

mas a gente nunca pensa


.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

capítulo 3

'tu não te moves de ti'
não é coisa pra se tatuar nas costas

não é à toa que ela escreveu no papel e não na pele da garganta (embora)

dependendo da posição não é fácil prum cara comer uma mina
com um peso assim se impondo a cada investida
forte

mas tá lá e em letras caligráficas e anônimas e
agora tenho que conviver
com isso de tirar a roupa e tal

é quase como ter três peitos ou duas vaginas e mais um tanto
de explicação

é por isso (também) que decidi fazer sexo só:

1. se for inevitável
2. preferencialmente com mulheres (porque mulheres a. não são derrubadas facilmente e b. sabem fazer filosofia de verdade)
3. com tatuadores

mas esse 3. aí surgiu só agora e eu ainda tô pensando se
mantenho

tô pensando

pensando
pensando

enquanto prolongo o tempo dessa picada



.




capítulo 1

perguntou se eu só tinha duas tatuagens

'não!' e expliquei o meu medo da dor
'só tenho uma'

aí mostrei as costas. meio rápido, meio assim pra não dar tempo de ler
então ficou me olhando
me olhando de um jeito que me mexeu lá por dentro

'são duas',

repetiu que eram duas
e eu fiz uma cara que é igual essa mesma que eu tenho de curiosidade
curiosidade que não acaba
nunca

'você tem uma tempestade tatuada nos olhos'

foi isso que ele disse
e eu pisquei


.


gosto

eu gosto desse quarto
novo
eu gosto dessa cama
nova
e gosto dessa colcha
gosto
dessas minhas coxas
em xadrez
descruzando
novo
essa minha vida
nova


.

desejo

quisera meus pássaros todos
voando-me


.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

cena punk

o meu vizinho abre os braços
e prepara
um mosh

é o melhor show da sua vida


histéricas as árvores em roda
se empurram no bate-cabeça


.

domingo, 7 de setembro de 2014

outono

pendurou-se aos pés
da pitangueira
             e suicidou-a


.

oficina de criação

colocava os sapatos que pertencera à mãe
e a bolsa amarela a tiracolo
herança da avó
a menina brincava de ser mulher brincando de ser menina brincando
no porto de santos a menina
era mulher


.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

naus

o abismo não se vê
ele nos espreita às escondidas
isso que pode ser visto ainda 
é o raso

cuidado!

senhor
não se faz amizade com abismos
eles não são confiáveis

além disso é bom 
ter a mão 
um kit Ur de primeiros socorros:
redundância de cordas e ferros
metais e percussão
sapatos de escalar com dentes
e ganchos 
de regente
quebrando 
a orquestra 
atrás 
da gente

pirataria

de literatura já inventada


.

alemão

eu gosto de alemão
eu gosto de tudo que não entendo
do alemão eu conheço bem o alem 
e a mão
fechada 
num cumprimento firme

além da mão do alemão eu gosto dos pés
invisíveis
como todos os pés verdadeiros são
os que não são
são extensões
repara nas engrenagens
e na mala
esperando-os de boca aberta
as roupas ainda dormindo
esticadas no armário
e uma corrente elétrica
pendurada no pescoço

curto-circuito

um dicionário é pouco pra fazer um haicai
com aveia, mel e sílabas tônicas

só uma língua rebelde
que não declina
pode parir 
um novo idioma


.

tiramissu

toco as cordas
dessas coisas sem cor
translúcidas e ilógicas
de um voo que se faz no barro

estico meus braços pra baixo
colho uma porção de fome em folhas crespas
mil bocas têm as gramas
carnívoras

mas meus dentes são afiados
seletivos: precisam cheirar muito antes de morder

tenho roçadeiras nas línguas
em todas as línguas, inclusive nas dos dedos
e ourobouros descendo pelos cabelos
meus poros têm cus que não se escondem
nas dobras de página do livro da minha pele
papel reciclado pra cegos de todas as línguas
inclusive as mortas
ensinando um novo idioma fantasma
aos cus da tua pele

eucossistema
fecundada por palavras de lã e carneiros
nunca comi tiramissu mas sei:  

eleva-me


.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

rotas líquidas

a cama rota
os lençóis lançados à beira
de lugar nenhum

fome & jejum

holoclaustro

       hologramas
              holometrias

plantou pequeninas asas na minha língua 
e saiu pra trabalhar

a estrada só tem fim
no meio

agora no céu da minha boca 
urtigam estrelas com dentes


.

entre coimbra e o mar

bonito
é o teu nome
nuvens de lã
soprando antigos sonhos em brancos lençóis d’água

sobre a mesa


.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

palavra grande

buscas a exatidão nesse meu sentir
palavra grande que contemple tudo
cômodo espaçoso pra tua morada

e cavas as dobras do pensamento
tentando decifrar as línguas mortas 
remexendo baús e cantos da ideia
dos meus mestres antepassados

nada há no meu sentir que seja ex
ato contínuo disperso num tempo
eu já te disse passarinho asa carne
lesmas conchas asfalto bomba atô
mica carnaval moscas vento e pão
............................................
fiz um ninho desabitado de ovo
no meu verso .........................
que não cabe palavra nem letra 
e justo ao sopro desse silêncio
............................................
que teus olhos já não ouvem mais


e dito isso nada é o que ainda há pra dizer.


.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

notas de elevação

para elevar o espírito às segundas-feiras
de manhã:

alongar os dois braços até tocar as cordas do sapato
dedilhar sem pressa as notas espaçadas de uma canção
que ainda não existe mas pode ser a nossa
melodia inédita soprada no vaievém do vento na avenida

hoje eu acordei com um besouro entalado na garganta
de pernas pro ar
e com o sangue tingido de vinho

nenhuma vez os passos até o extra me levaram tão longe
havia açucenas nas calçadas sonhando motores
e todos os semáforos abertos como um sorriso em verde
e as paredes ah as paredes não existiam menos uma:
aquela por que assim tão macia?
e por que as grades do portão me prendendo pra fora?
numa promessa de liberdade atada no tatame dos olhos

cinco estrelas pequeninas pinceladas no teu rosto
e no dedo, lembrança e herança da tua bisavó

você reparou tudo isso?

você reparou o momento em que tirei os sapatos e
passei a andar dançando
                     com a língua descalça?

ou foi só eu
a me embriagar na carne da tua poesia?
a me alimentar da fome que nem sabia
                                que fora dela me existia?


.

notas sobre "a noite estrelada"

há tornados nos meus mares
trombas d'água na tua boca
e o teu nome
e o teu nome
dando voltas à minha língua

dentro, eu te chamo
pra habitar o quadro azul
que goteja sobre a cama
há um sol metido nos meus lábios e o teu luar
em luta cravada na noite livre do meu desejo
te estica no então
sobre a minha pele
cereja roçando nela o hálito de um silêncio e espera
eu derramar
minha boca
sobre a tua desaguar o sonho
de um rio até aqui
                      tão só e sério


.





quinta-feira, 14 de agosto de 2014

bem baixinho

eu vou sussurrar o segredo colocado assim de joelhos / aos pés 
do teu ouvido: é

preciso muito braço pr'abraçar todas essas tempestades
alguma coisa sempre se perde no meio de tanto presente

preciso muita boca pr'engolir esses desamarelos girassóis
coisa alguma se ganha no meio de tanto passado sempre

será que vale a pena desenhar tanto silêncio nos desvãos in 
significantes e palavras e pontos pretextuais sem posfaciais?

mas eu empresto / mais / eu m'em presto as minhas costas 
pros teus cálculos forjados nos lábios jovens maduros de duras equações x y e zelnys raiz quadrada elevada aos quintos dos invernos potência translúcida de cigarras geométricas e ancestrais e você pode tu podes começar agora pelos nuncas da minha nuca desviando do que nela é presente: uma estrela vinda de luanda no meio da madrugada: e depois o que é agora retidão números virgulados e frações de pele em pelos arrepiados nas ruas brancuras longilíneas de lousa fria de pinheiros mas desce e aponta o lápis com cuidado que no em mim sempre tudo dói principalmente o prazer e traça um traço pro resultado vermelho porque essa busca já começa no negativo a câmera clara pra essa tua fotografia escura embaçada nas bordas laterais porque no centro ah o centro tudo é desfoque por isso por isso pendura no lugar dessa certeza uma interrogação pincela nessa conta uma interrogação trançada de corda serpente enrolada nos pincéis de van gogh desconta então duas três quatro porções de pétalas desamparadas de velhice e considera algumas pérolas ainda úmidas dessa noite sem fim de apertar os passos exilados no mapa das minhas pernas e come o teu pão preparado no cuidado de canelas demorado e impreciso é o resultado quando se soma digitais nos dedos dos pés e talvez tal vez hoje nem haja pitangas porque alguma coisa é preciso deixar pro futuro dessas coisas bonitas exorbitando o teu universo e desordenando a órbita desses dois olhos da tua iris:

não tenho ciúmes das coisas bonitas 
só tenho ciúmes daquela que é mais:


.