quarta-feira, 24 de agosto de 2016

a viagem

I.

demora. mas uma hora a gente vê que o mar, o sol, a lua, o sorriso, nada
disso cabe na foto-
grafia. moldura. cinto apertado na cintura. demora. é quase sempre do meio
pra frente, na viagem. desligamos então. a máquina. olhos. nas pontas dos dedos, cílios. na língua, o cheiro. a gente
se expande. cabe então a saudade. demora.

memória: o encontro entre dois infinitos



II.

toda viagem se faz só. primeiro. depois: 
no aberto.  passageiros. pegadas sobre pegadas. e o vento 
camuflando os passamentos...

intimidade: encontro entre dois grandes
silêncios.



III.

o meio. pouco antes até. o meio
é marcado pelo des-
controle. olhamos as fotos. tudo
parece. nos escapa: os dentes
do sorriso, as ondas
do mar, a barriga
da calça, o contorno
da lua, a grandeza
do sol, você
que era para estar aqui, no meio,
ao meu lado, o limite
de um cartão. de crédito. então começamos a a-
pagar tudo que está duplicado. ou tudo que não parece com
o que. não tem forma. somos só
isso. e já é tanto. 
o flash. de um vento
nos cabelos.

forma: tentativa de contenção do in-
finito



IV.

é no meio que nasce o desejo. nos meios. todo desejo começa no.
arrepio. dos dentes. entres. o desejo não está no iní-
cio. nem no fim, na viagem. o sexo.
demora. 
no começo tudo são. curiosidades. no fim, saudades. [até do que não 
se
passou]. mas
no meio, a vontade. lateja. então pés. se trombam. sotaques. se
enroscam. se dançam. cegueiras. se
reconhecem. e seria tão fácil
se

se: a condição para os encontros.



V.

desejo que não se
mata. se alimenta.
a fome. na viagem. da viagem. não se
sacia. se multiplica. duas
viagens. lineas paralelas se esticando no tiempo. dos rios
que só transbordam
se
se
encontram

transbordo: passagem de um corpo a outro
corpo
itinerante



VI.

somei minha viagem
a tua. e a distância. ainda. procuro
a estrela.
aquela.
aquarela.
que também te guia.

distância: dois pontos preenchidos por água, noite, dia,
melodia e f-
é



VII.

o mar me disse. cuidado com essas águas de dentro. então
piso suave
meus pés
entre ouriços
e corais.

o mar: tem a sabedoria dos pais.



VIII.

a paraíba me convida. pra ficar. eu tenho
uma rede.
um repente.
tenho corda e cordel. tenho
um sotaque escondido no fim. de cada
frase. pronto.
mas viagem é movimento. só
fico. onde o coração. balança.
viajeira. 
viajante.

vertigem: nos marinheiros, a instabilidade
do chão



IX.

é nessa cama. onde? de areia. que te espero. nossa cama. onde tua viagem
termina. e a minha.
recomeça.

então recomeçamos. do meio.
pra frente:

viagem,
todo movimento que sempre e
ainda
é



.
[Praia Areia Vermelha, Paraíba, 20/08/2016]

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A cabra

há tanto tempo que nem sei quando foi o quando mais certo em que comecei a te criar, te deixar num corre largado de prados frescos, comendo de sua própria fome, cabra ancuda, chifrenrolada nas ideias, fêmea da seca montanhosa, lanhosa e lustrosa nos cascos, cabra-angorá carnuda parida na ponta do lápis, e eu já nem sei e se soubesse diria que foi nuns outubros certamente porque mês outro que não esse que é dos maios macios onde é a mais pura verdade: me escondo em você, toda em caco, caprítica, partida, barba finafininha, balido baixo, sendo outra que outubra só nos cantos, pouco conformada à capinagem e confinada na adversidade de mimesma, domestico é nada que tão selvagem aquela que não se aparenta a si quando a selvageria está na seiva da pele em flor, despelada, em carne crua descarnada, desgraçada, prolífera, aquela que não é e cabra sendo...

quinta-feira, 14 de julho de 2016

sobre a mesa do bar

de cócoras
sobre teu rosto
enquanto pinto
as unhas
de vermelho-
vivo
o amor
de ponta
cabeça-
dura, você
contando notas
amassadas
embebido
de mim

desequilibrada
sobre salto
rascunho
teu corpo
amargo, amora
dois riscos
perdidos

sinuca de bico
a bola
branca
encaçapada
na garganta

não demora, tua
língua
me fode
a alma


e eu tomaria uma garrafa
[ou duas]
de você
sem tirar a boca
do gargalo


.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

segunda-feira, 27 de junho de 2016

carta a Murilo

e eu que era a mulher do fim
do mundo
metade pássaro
metade gaiola
me vejo e canto
em demora
nua de asas e
portinhola
tatuada de inícios
mulher
de agora

.

paixão

porque o olho tentando perfurar a imagem
porque a voz tentando perfurar o limite
porque a escuta tentando perfurar o sentido
porque a intuição tentando a lógica
porque o vazio tentando 
o abismo
porque o corpo nunca
nunca
cede

então o punho
e o nada


.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

descobertas

tento te abraçar e
me faltam braços
para abarcar todo
esse escândalo que é o amor na sua manifestação mais humana


.