segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

bom-senso

se soubesses que a boca
obstinada
não cansa de beijar-te
de lamber-te, fogosa,
as migalhas
das orações que t'escapam
pelos cantos
e escorrem do pescoço
à camisa

- noto
que até o botão deixou-te,
não eu
(estou aqui) nesse buraco
vazio:
-

segues o cabo enfiado
à garganta
agarra-te nele que ele
alcança
minh'alma

sentirás que é ela uma
maçã polpuda
pingos sumorosos
de existência
todo o resto é história
da criação

deseja minha alma e
sinta ternura
por esse corpo que se ex-
tingue
antes da impudente
idade do bom-senso
crava-me
teus dentes
enquanto há tempo


.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

teto

os olhos colados no teto desenham poemas
que já não posso escrever
escondem versos invisíveis nas rachaduras
que só eu posso ver
só eu posso ver
eu posso
só, eu
me tornei palavra
muda
desde que o corpo calou
afetos
não me afetam
agulhas
mas a dor
estampada na aridez do toque

ninguém lê minha escritura
película fina sobre cristais
de tempo
em tempo: todos se arcam
sobre mim
buscando vida no debaixo
não olham para cima
não importa a poesia

vasculham feridas, buracos
o amarelo dos olhos

[não toquem na minha língua!]

agora tenho um teto só
meu
caderno de rascunhos
a vida e a morte se conjugam
no agora

eu escrevi um verso rimando
internamente cânula
& calêndula
tu devias de saber:

está tudo escrito
no lado de cima
sob luzes fosdorescentes
só eles não podem ver
só eles não podem
só, eles não
mas é lá que ela estou


.

bilhete

ontem minha mãe leu os poemas que escrevi para ti e
chorou
provavelmente entendeu
nada

[poesia é presença
e certamente tu estavas lá]


.


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

número 547

eles limpam as cinzas da minha boca
e forçam as gengivas banguelas
como se as escovassem

onde foram parar meus dentes de roer
mundo?
os dentes que fincava sobre tua guarda
costeira?
os dentes que riam tua rima desastrosa?
os dentes que tantas vezes emprestei
aos desdentados?

onde foram meus dentes e a dignidade
da minha boca de poeta?

não sabem nada da história
desses dentes tortos
do ciso quebrado
nem da escrita calcificada
na língua
penetram à noite
pelas fissuras da parede
amordaçam minhas palavras
e se vão sem deixar estímulo
à poesia

cada dia seco mais com o sol e murcho
como pássaro pesado
de chuva

ontem foi dia de banho e m'arrancaram 
a alma
enquanto riam de suas histórias tristes

eu queria para mim uma história triste 
então colocaria nela ataduras
derrubaria suas paredes e construiria
um muro
baixo que para ouvir teu sussuro
longe habitando uma grossa gota
seca de lágrima
só o sussurro me lembrando
que ainda tenho um nome

o nome que escondi enrolado
na minha morte
que escondi dos olhos que despem
indiferentes ao poema

e enquanto eles não me chamam
eu não vou



.

sem título

atreva-te a atravessar essas paredes
de uma memória dura
ficcionalizada em poesia
dobra teu corpo sobre minha cama
e injetas duas ampolas
de gozo líquido
nesses olhos
insones
são as noites que te espero tanto
são as noites que
são
escuros
todos os gritos guardados entre
a fronha e o travesseiro
não há espaço para a dor
e reza comigo três versos
não importa o que digam
apenas a rima açulando sentidos
e os meus pés
adormecidos
os cantos
as camas
os mortos-vivos
as seringas e as agulhas
os passos brancos e rítmicos

atreva-te a furar o silêncio
com teu falo que aguardo tanto
e com os dedos unidos
planta no meu sexo seco
a tua oração

não te enganes com o que vês
a vida
acontece no avesso

então dobra-te sobre ti mesmo
pois há um poema
em estado gasoso
escapando pela janela
da garganta
vejo tudo que respiro
tenta contê-lo
em teus lábios
guarda dele ao menos
as asas
para quebrarmos
junto suas arti
culações

porque se um dia eu voltar
a viver
será para a morte



.
[para minha tia, em espera]

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

casaco de pelo

atrevo-me a tocar o tambor e
colar-me como um desenho tribal
nas costas
do teu mar
espreitando tua cama
até que me chamas
para galopar

nas noites de verão o céu estrela
por debaixo das ondas
arraias pretas pintadas de branco
envenenam os dedos

deixa o piano mudo
e se muda para as sardas do meu braço
escondido sob o teu

e eu não digo nada
apenas

engulo cada pecíolo desse teu lençol florido
e me estico
minha perna sobre a tua e atuas sobre mim
gestos teatrais:
me faço árvore
enquanto enxertas o tempo no meu ventre
o tic-tac tic-tac tic-tac adiando
in-fi-ni-ta-men-te
a morte
da minha hora

eu só tenho uma hora e trinta e sete minutos
para te dar

tenho um coração bruto
mas minha vagina é macia
e ela recita poemas de cor
foca nela
e não te intimides com os animais selvagens
em debandada quando abro a boca
para gozar
os versos
que nunca serão
escorrem
abortados dos caninos

os versos que se escandalizam do teu cuspe
regando minha língua
minha face
o pescoço
o livro em russo que guardo entre pelos
e pernas

tu levarás no mínimo duas vidas
para traduzi-lo
então me chupa
enquanto os versos escandalizados fodem
a poesia

trepas com uma flor
não sabias?
pois agora saiba e cuida-
te


.


cadeira

então ela tampou a panela e tirou lá de dentro um pouco de coragem para perguntar.

logo ela sempre abismada no silêncio, entoando apenas a melodia morta de umas canções que nunca conseguiu aprender a letra, ou entender o que de fato significavam. só aquele amortecimento, aqueles calafrios, a quentura subindo na garganta enquanto balbuciava umas rimas fonéticas... 

"o que você mais gosta em mim?", cuspiu timidamente. 

ele enfiou uma asa de frango na boca e mastigou junto com um seilá quase incompreensível. mas olhou-a. olhou-a sob a cortina de silêncio que se fechava entre eles. "a boca". a boca? como assim a boca? a imagem atravessou-a como se um maçarico. depois um buraco vazio de significantes. quase um poço. enfiou a outra asa na boca. mastigou também uma ideias tortas. o tempo se estende quando sentamos no intervalo entre uma palavra e outra. cadeira por exemplo é uma palavra muito distante de outra cadeira. ficaria assim: o tempo se estende quando sentamos no intervalo entre uma cadeira e outra.

"por que a boca?" perguntou com a coragem renovada pelo ar fresco que vinha da geladeira aberta. que nessas noites de chuva sempre havia sobremesa antes da cama. dentro dela outras questões aconteciam, mas sem força para se formular: se eu sempre em silêncio por que a boca? seria pelo que falo ou calo? por que a boca se a língua tão estrangeira e todos esses dentes duros de segunda-feira? não, ela não pensava tudo isso. só parecia que ela pensava porque quem pensa são os outros. a gente sente. 

"ah porque sim", foi uma resposta de poucos olhos misturada à calda de frutas vermelhas. mas tudo foi bem mais rápido do que parece. não fossem os procedimentos tecnológicos não haveria nem tempo para o texto. ele estava bem perto agora. o tempo se contrai quando retiramos as palavras. intervalo por exemplo é uma palavra. aí só sobra a respiração. 

talvez que no momento da resposta, ou num momento posterior à ela, já que é preciso de alguma fração de tempo para que as coisas façam sentido, ela tenha pensado que diante daquilo - do que foi dito, claro - as palavras não importam tanto. 

são apenas detalhes.



.