quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ainda hoje

ainda hoje escrevi impertinência numa folha em branco
depois risquei um fósforo e queimei-a
até o fim

então cortei as unhas dos pés que já estavam grandes
demais para os meus passos e
eu só queria ter os pés - os dois pés - do tamanho exato
para caber nesse sapato chato
chamado vida

há uns dias você esteve em minha casa e disse qu'isso
que eu faço não é poesia
eu sorri meu sorriso mais irônico e amaldiçoei cada grão
de pipoca que você engolia
acho que foi por isso que você passou mal e ainda passa
os dias sofrendo por mim

cento e trinta e cinco grãos de pipoca fazendo pipoquices
nas suas entranhas e eu sei que é uma magia estranha
mas funciona

espero que algum dia você consiga ficar em pé de novo
embora eu não
acredite em milagres
há tantos mistérios desencapados nos fios telefônicos
quanto supõe nossa
van escolar filosofia

será que algum dia te brotarão de novo dedos de escrever
poesia?


.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

sujas são as ruas da liberdade



furuike ya

kawazu tobikomu
mizu no oto

diria ser sashimi isso de mym
entre teus dentes

e sorriria o riso mais infinito

mas só há silêncio na boca, cheia d'água

eu te desejo co'a mesma fome de antes
da fome desse teu sorriso tão... infinitos
fios de cabelo diagramando
o olhar:

milenar é a cultura do amor

gotas nuas dançam sobre guarda-chuvas decorativos
e sob nossos pés ávidos queimando asfalto, calçadas,
bocas-de-lobo, poços e poças
impuras
e sujas são as ruas da liberdade

mas não me importa que sob nossas unhas bichos
carpinteiros construam telhados
pra duas águas

e tão afinados
teus caninos aos meus
traçando rotas mais ou
menos seguras
pro nosso barquinho de sushi em plena tempestade

mergulho
os dedos nos teus cabelos: sempre-os-teus-cabelos
de anjo
enrolando meus dedos negros
de shoyu

se come crua a carne do pensamento?

misturo letras no karaoke
cara, o quê?

como são hábeis teus dedos na arte
de deter o aroma débil desses indizíveis

detalhes presos às pontas do hashi

saciedade se escreve com dois
esses ou c?

eu sei que

I.
em algum lugar duas rãs descansam
insubmissas à poesia

II.
nus sobre o tatame
os peixes dormem
olhos abertos encarando os sonhos


.

noite

a noite arma
o bote sobre o dia

precisa a espreita

chocalhos 

na ponta da unha
silêncio

agoniza 
último fio de luz

enlaça a poesia 

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

eu lavo teus cabelos

quero escrever um poema onde eu lavo teus cabelos
um poema úmido
dos pés à cabeça
um poema
molhado como tem sido a vida
das minhas pernas
sempre apertadas desde que minúsculos peixes desesperados resolveram subir as en-
costas e ocupar o raso lago da minha sina
de mulher

eu te mandei uma música da joni mitchell
que supostamente você não ouviu porque
há trabalho demais e
tantas músicas ainda
por ouvir

então estou escrevendo um poema onde
enfio os meus dedos cheios de shampoo
e esfrego
os meus
nos teus pensamentos

e, supostamente, depois de seco, você vai acreditar que essas ideias todas de azul
brotaram irmanadas à tua raiz braba
à negrura indômita dos teus cabelos
mas
fio a fio eu teci com espuma uma arte
esquecida no tempo das minhas irmãs

é uma arte que se chama conceito e escorre pelos ralos entupidos de pelos pubianos
contaminando os esgotos e os rios contaminados pelos esgotos
prisioneiros dos de-baixo radioativos

agora eu só posso tecer pensamentos numa linha lógica entrecortada por um ou
outro sorriso surrealista

então ouça a canção e apenas retire dela o trecho em que ela fala da meia-calça
porque eu já não tenho meia-calça, você a rasgou com os dentes, lembra?
enquanto defumávamos o quarto com sexo, poesia & uma droga leve
levíssima que para afugentar assombrações
lembrou?

e nessa hora eu esqueci as assombrações e então as minhas pernas úmidas como
meus dedos indo e vindo nos teus cabelos
por acaso isso se parece com um romance
estamos tendo um romance, baby?

porque se sim, eu também vou tecer um suéter
pra minha língua e aquecer essas palavras frias que vezenquando se esquecem que
já é verão
e queima
nos lugares radioativos onde uma perna e outra
sufocam
meu caos

teus cabelos, um pouco de espuma, paciência, sorrisos surrealistas, joni mitchell
na vitrola imaginária, você
inteireza desloucada em azul, eu
artesã de conceitos

quer dançar comigo, baby?

hoje.


.

reflexão sobre o segredo

peixes secos habitam o ventre da mulher que deu de comer ao pescador ingrato

adiamentos

eu era noite
e tu
o dia que devagarinho me comia

sonhos esquartejados na engrenagem das horas

dois girassois encarando espelhos

já era dia
e tu
ainda dia

e me ardia insone, preclaro projeto de escuros


.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016